A solidão dos famosos

By Naylton dos Santos

Estar sozinho é ótimo para refletir a respeito da vida e descansar dos problemas do dia a dia. Já a solidão faz tão mal à saúde quanto o cigarro, segundo pesquisa da Universidade de Chicago (nos Estados Unidos), divulgada em fevereiro, podendo levar à depressão, ao estresse e ao aumento da pressão sanguínea e dos riscos de mal de Alzheimer. O mesmo estudo indicou também que, de cada cinco norte-americanos, um sente-se só. 

“A solidão é uma característica específica do ser humano, que nasce, morre e toma as decisões mais importantes sozinho. Ao mesmo tempo, a vida nos bombardeia com tantas coisas que, quando estamos sozinhos, sentimos um vazio existencial. Essa é a solidão negativa, assim como a exclusão e o isolamento, muitas vezes vivida pela pessoa famosa que a sociedade esquece e que acaba recorrendo ao álcool e às drogas”, analisa José Castellá Sarriera, professor de psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

De ator consagrado nos anos 80, graças a filmes como “9 ½ Semanas de Amor” (1986), o norte-americano Mickey Rourke trocou o cinema pelo boxe, o que lhe levou a, além de cair no ostracismo, perder parte da audição, ter amnésias temporárias, quebrar costelas, reconstruir o nariz seis vezes e, já no final da década de 90, só conseguir comer graças à mesada dada por um amigo. “Na minha pior fase, meus cães me deram afeto e companheirismo, e me ensinaram que posso cuidar de algo vivo, e não só destruir. Eu não estaria aqui se não fosse por eles”, garantiu a uma revista brasileira o astro que ganhou o Globo de Ouro de melhor ator justamente pelo papel de um lutador solitário e decadente, no filme “O Lutador” (2008). 

“Há pessoas que conseguem lidar muito bem com a fama num determinado momento e com o total ostracismo em outro momento. Já outras pessoas não conseguem lidar com o insucesso. É quando a solidão fica mais evidente. Esse foi o caso de Mickey Rourke, símbolo de uma época, e que talvez não tivesse sustentação emocional para lidar com tanta fama e criou mecanismos de auto-sabotagem, que o retiraram do caminho do sucesso”, avalia a terapeuta Vera Dantas, especialista em psicologia analítica. 

Ícone nos anos 60, a atriz francesa Brigitte Bardot, hoje com 74 anos, deixou a carreira em 1973 para isolar-se na mansão onde vive em Saint-Tropez, na França, e só aparecer para defender a causa dos animais. Por três vezes, a atriz tentou o suicídio, ora tomando barbitúricos, ora cortando os pulsos. Dos seres humanos, incluindo o próprio filho, do qual nunca cuidou, ela sente ódio, tanto que foi condenada cinco vezes por racismo. “As pessoas se aproximam muito dos famosos por algo idealizado e que eles representam, só que se afastam deles quando perdem atributos como beleza e jovialidade. É o que parece ter ocorrido com Brigitte Bardot, que optou pela reclusão quase como forma de protesto e busca pelo menor sofrimento”, observa a psicóloga Rachel Zausner Skarbnik.

Recluso no rancho Neverland (Terra do Nunca, em português) durante 15 anos, o cantor Michael Jackson é outro exemplo de quem parece não ter suportado a pressão provocada pelo sucesso e pela grande exposição na mídia. Nesse caso, porém, o afastamento só fez 
aumentar o interesse com relação à vida do “rei do pop”. Em meio a escândalos sexuais, plásticas faciais e doenças, segundo se noticiou, Jackson foi levado a negociar o rancho, 
em 2008. 

Nenhuma frase simbolizou tanto situações como as descritas acima quanto à dita pela atriz sueca Greta Garbo, no filme “Grande Hotel” (1932): “Eu quero ficar só.” Após um fracasso profissional em 1941, ela abandonou a carreira aos 36 anos. O insucesso também levou a ex-integrante do grupo Spice Girls, a cantora Emma Bunton, a anunciar que desistiria de cantar, o que também fez, em abril, outra integrante, Geri Halliwell. Entre junho de 2007 e fevereiro de 2008, as duas estiveram juntas na turnê mundial de retorno do grupo, que, em seguida, se desfez novamente, porém, há sempre boatos de que elas podem retornar a qual- 
quer momento. 

O principal motivo que levou o ator norte-americano Marlon Brando a se afastar das telas no início dos anos 80, para só aparecer, a partir de então, em pontas de filmes de pouca repercussão foi quando um dos nove filhos dele foi preso por matar o namorado da meia-irmã, que se suicidou. Vencedor de dois prêmios Oscar, Brando passou os últimos anos recluso na Polinésia francesa. Há quem garanta que o sustento do galã vinha da pensão do sindicato dos atores e da Previdência Social. 

Solitário também foi o final do jogador de futebol Mané Garrincha, que, aos 49 anos, morreu numa casa de saúde no Rio de Janeiro, vítima do alcoolismo, sendo identificado apenas por um esparadrapo com seu nome. Bicampeão mundial em 1958 e 1962, Garrincha abandonou os gramados em 1973 e sofria muito por achar-se explorado pelas pessoas que o rodeavam.

Por: Naylton dos Santos

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